Cambridge Analytica e como uma pequena empresa conseguiu dominar o mundo

A tempos, passando por uma das ruas de Luanda, decidi como quase sempre, dar mais uma vista de olhos na bancada de chão, dum desses rapazes que vendem livros antigos e que ficam nas diversas esquinas da baixa. Um deles em particular, cativou-me a atenção: O teste Sociométrico SOCIOGRAMAS. de Danny José Alves da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Brasil.

Não fosse o facto de nunca ter antes ouvido falar de Sociometria, porventura ligaria nenhures ao livro. Abri, li uns excertos, achei interessante, dei o habitual ‘jajão’ negocial e obtive a preço de banana. O livro era de facto antigo. Estava assinado pelo antigo dono, como parecia ser hábito das gentes da era colonial e datava duns longínquos 10 de Maio de 1977, ora 41 anos portanto. É de notar, entretanto que o livro, está impecavelmente bem conservado.

Segundo o livro, parece que a Sociometria é uma ciência social desenvolvida pelo professor Norte-Americano Jacob L. Moreno nascido em 1892. No entanto, em 1974, data da publicação da segunda edição (a primeira foi publicada em 1964) do livro ela era ainda uma ciência bastante desconhecida.
Segundo Jacob Moreno, a Sociometria é um instrumento que estuda as estruturas sociais em função das escolhas e rejeições manifestadas no seio de um grupo.

O que a Sociometria pode fornecer?

Sendo uma ciência que estuda comportamentos individuais no contexto de grupos, ela pode fornecer:

  1. A posição que cada um dos componentes ocupa no grupo (popular, isolado, excluído, não-excluído), assim como a posição que cada individuo JULGA ocupar no grupo;
  2. As relações de afinidade (antipatia, rivalidade, etc.), assim como a neutralidade ou inexistência de relações (indiferença);
  3. A estrutura sociométrica do grupo: A trama de comunicações (escolhas reciprocas), os focos de tensão (rejeições reciprocas), os subgrupos, as barreiras étnicas religiosas, raciais, etc;
  4.  A dinâmica dos grupos: as modificações dos quadros e a evolução dos processos no seio dos grupos (reteste).
    A seguinte pergunta é que deixou-me realmente intrigado.

Que dados procura obter quem realiza um teste Sociométrico?

  1. Dados relativos a projeção de cada elemento do grupo para o grupo (preferências e rejeições que dirige a cada um dos componentes do grupo). Fornece as projeções de todos os componentes do grupo em relação a cada um dos componentes;
  2. Dados relativos a percepção que cada componente do grupo tem de si mesmo em relação ao grupo (preferências e rejeições que acredita receber dos componentes do grupo). Fornece indirectamente, a maneira pela qual um dos componentes do grupo é percebido pelos demais componentes.

Em suma: o teste de projeção sociométrica é a que fornece a projeção do individuo para o grupo e a projeção do grupo para o individuo. O teste de percepção sociométrica é a que fornece, em relação a cada individuo, a maneira pela qual o próprio individuo se percebe e é percebido pelo grupo.

Ora, depois de perceber minimamente o que isso significava, alvitrei a hipótese de escrever um software que pudesse servir de apoio psicológico a alunos de colégios privados vitimas de bullyng e detectar potenciais alunos vitimas de bullyng. Desisti depois de analisar o mercado, que não está ainda maduro o suficiente e nem tem concorrência que estimule a adoção de ferramentas de diferenciação no mercado.

Bom, sendo verdade que já la vão mais de um ano, foi com enorme interesse que presenciei a semana passada o depoimento de Christopher Wylie ex-consultor de analise de dados duma empresa até então desconhecida pela maior parte de nós, a Cambridge Analytica e também contra o Facebook.

chrys wylie

Wylie acusou a Cambridge Analytica de ter manipulado o sentido de voto de 50 a 60 milhões de norte-americanos e do Facebook ter sido conivente com esta pratica, ter tido conhecimento dela e nada ter feito para alterar a situação.
Rapidamente a revolta disparou. Acusações e apelos contra violação de privacidade pelo Facebook foram lançados por este mundo afora.

 

 

 

 

Mas vamos por partes.

A biografia de Wylie diz que teve uma infância difícil algo desinteressante, vitima de bullyng abandonou os estudos aos 16. Sofria de dislexia. Depois de abandonar os estudos começa a trabalhar no parlamento Canadiano ainda muito jovem. Era o rapaz da Internet e da Informática. Os parlamentares gostavam dele. Resolvia os problemas. Aos 19 aprende a programar algoritmos estudando sozinho e aos 20 inicia estudos de direito na prestigiada London School of Economics em Londres.

Enquanto isso, no centro de psicometria da Universidade de Cambridge, Michal Kosinski e David Stillwell, iniciaram pesquisas para encontrar novas formas de estudar a personalidade humana, mas desta vez, por procurar quantifica-la. Em 2007 Stillwell, enquanto estudante, inicia o desenvolvimento de diversas apps para o Facebook (numa época em que os smartphones ainda não eram o principal meio de acesso), uma das quais em formato de inquérito (quiz), chamada myPersonality que se tornou imediatamente bastante popular.
Os usuários depois de jogarem eram avaliados em cinco (5) grandes traços de personalidade: Abertura, Consciente, Extroversão, Originalidade e Neuroticismo. Em troca disso, 40% deles consentiram dar acesso aos seus perfis do Facebook. É óbvio que esse engodo permitiu que não só os seus traços de personalidade fossem estudados minuciosamente, mas muito mais grave, rapidamente Stillwell encontrou uma forma de correlacionar as avaliações de personalidade e os likes que esses usuários davam em determinado conteúdo.

Claro que essa género de correlação rapidamente despertou o apetite de agências de inteligência e dos militares. Um desses tipos de correlação descoberta era algo engraçada e versava o seguinte:

”Pessoas que deram like num conteúdo que diziam ‘Eu odeio Israel’ tendiam a gostar de sapatos Nike e de chocolates KitKats”.

Bom, mas que coisa engraçada, mas também preocupante, porque era a mais pura verdade.
Mas como chega Wylie, um licenciado em direito e programador freelancer a envolver-se nessa narrativa?

Bom, já mencionamos a pouco tempo que as agências de inteligência e militares começaram a interessar-se por este assunto. Se Stillwell estava envolvido em criar apps, Kosinski por outro lado recebeu patrocínio da Boeing e da sempre insuspeita agência de defesa Norte-Americana, a DARPA para um doutoramento nesse âmbito de pesquisa.

Respondendo a pergunta, é bom saber que Wylie por seu lado, já havia iniciado estudos de doutoramento em ‘Previsão de Moda’, um destes cursos estranhos, inovadores e fortíssimos que só existem nos EUA e que mistura estatística, probabilidades, psicologia e sociometria para determinar tendências de moda nas próximas mudanças de estação. Em suma, você consegue perceber que as grandes cadeias de moda já não lançam roupas só por lançar. Elas, analisando o perfil de consumo da população conseguem determinar o que elas tenderão a consumir mais na próxima ‘safra’, isto é, na mudança de estação.

Bom, Wylie dá de caras com um artigo de doutoramento de Kosinski e tem aquele momento EUREKA que, convém dizer, ele não foi o único a ‘despertar’ pra realidade vindoura, mas foi aquele que percebeu a efectividade do assunto numa área que ele dominava bem e estava por dentro como funcionário do parlamento Canadiano pelos Liberais Democratas. Wylie que andava sem ideias, rapidamente procurou encontrar uma resposta ao insucesso dos liberais nos sufrágios, ao olhar em dados demográficos dos votantes e perceber que não existia qualquer correlação entre a sua posição geográfica e as ideias por eles advogadas. Não havia uma grande concentração demográfica de liberais. Estavam demasiado dispersos geograficamente e não existia uma explicação porque isto assim era.
Segundo Wylie, baseado no artigo de Kosinski, um típico liberal, é uma pessoa com personalidade altamente aberta, com baixo grau de consciencialização. Ninguém espera dum Hippie um alto grau de desconfiança em relação a novas ideias. Wylie propõe uma solução aos liberais para melhores resultados em futuros sufrágios, por captar novos votantes usando analise de dados, mas rapidamente é desacreditado. Ninguém dá valor a sua ideia inovadora.

Foi então que alguém dos liberais apresenta Wylie e sua ideia a alguém da empresa SCL Group que mais tarde viria a dar origem a Cambridge Analytica, esta que tinha clientes que variavam de governos, agências e militares.

Alexander Nix apresentacao

Alexander Nix

É ai onde entra o polémico Alexander Nix CEO da Cambridge Analytica. Talhado para o sucesso, antes da Cambridge Analytica foi analista financeiro e na infância foi educado numa escola aristocrática no Reino Unido.

 

 

Nix, concede totais poderes a Wylie:

‘Experimente todas suas ideias malucas’ vocifera ele a Wylie!!!

Wylie é enquadrado na Cambridge Analytica como director de pesquisa, envolvido em operações psicológicas, algo como mudar a opinião das pessoas não através de coação ou persuasão mas por meio de domínio da informação, uma amalgama de técnicas que vão desde a disseminação de rumores a desinformação e fake news (noticias falsas).

Steve Bannon

É assim que Wylie conhece o controverso milionário da industria cinematográfica de Hollywood e líder da extrema-direita Steve Bannon (na foto acima). Bannon ouviu falar da Cambridge por meio dum militar. Wylie diz que Bannon amou sua ideia e decidiu então ‘estender’ o apoio por angariar financiamento. Foi então que Nix, Wylie e Bannon viajam a New York para um encontro em Manhattan com o sinistro pioneiro da Inteligência Artificial, cientista e multimilionário dos mercados financeiros Norte-Americanos, o Eng. Robert Mercer apoiante da extrema-direita e sua filha Rebeka, licenciada em matemática, executiva gestora de fundações da direita.

 

Mercer e sua filha Rebeka

Para Mercer a apresentação de Wylie foi ouro sobre azul. Ele entendeu rapidamente do que se tratava, era algo muito próximo a sua área, ele é um cientista da computação artificial, Wylie um especialista em interpretação de dados de enorme dimensão. Mas nem por isso foi tão fácil assim convencer Mercer de que aquilo funcionava. A apresentação de Wylie era baseada num artigo de Kosinski denominado “Computer-based personality judgments are more accurate than those made by humans”, algo como ‘As análises de personalidade feitas por computador são muito mais precisas que as determinadas por humanos’.

Mas era tudo muito teórico. Ao contrario do que geralmente acontece em reuniões de negócios do género, Mercer, sendo a pessoa mais rica na sala, não era propriamente a mais ingénua, pelo contrario. Pediu provas práticas. Queria vê-la funcionar. Dinheiro para investir não faltaria.

Portanto, para provar que sua ideia funcionava, Wylie precisava de coloca-la em teste e para isso precisava de perfis psicológicos de muitos, mas muitos usuários.

Como conseguir esses milhões de dados?

É aí onde entra a empresa GSR (Global Science Research) criada por um ambicioso génio Moldavo/Russo/Americano da Psicologia, o professor Alexandr Kogan da universidade de Cambridge (e também de St. Petersburgh).

Kogan em si, não criou nada de novo. Só chegou a um acordo com Wylie depois do segundo falhar negociações com Kosinski. Kogan também teve acesso a pesquisa de Kosinksi e propôs a Wylie ir um bocado mais longe: replicaria o trabalho de kosinski e Stillwell desde que estes fossem colocados a parte de qualquer acordo milionário com Kosinski. Para livrar-se de suspeitas de invasão de privacidade, ele promete a Wylie e ao Facebook que os dados dos usuários serão obtidos para futuros estudos no ramo da psicologia.

Com os milhões de Mercer na mão, Kogan parte para a ação. É inteligente e percebe que para ganhar tempo precisa aliciar pessoas. Recorre a plataforma de contratação da Amazon, a Amazon Turks onde paga a voluntários para realizarem testes de personalidade numa aplicação por ele desenhada chamada de thisismydigitallife. É claro que não era uma aplicação normal. Confiantes com o dinheiro no bolso estes voluntários concedem acesso a aplicação a sua conta do facebook. Nada anormal, aparentemente!!!

Kogan, sabia que o Facebook não era muito rígido na forma como as apps acediam a dados dos usuários e dos seus amigos. Teve a vida facilitada. Basicamente Kogan pagou com dinheiro a 320.000 voluntários que tinham uma média de 160 amigos. Isso dá uns absurdos 51 Milhões de pessoas captadas em apenas algumas semanas. É muito dado, e é muita informação para entregar a Cambridge Analytica. Kogan ri-se, e ri-se assim porque além dos bolsos cheios, o Facebook pouco ou nada fez para trava-lo, mesmo tendo sido alertado pelos seus poderosos algoritmos de segurança baseados em inteligência artificial. Kogan simula e diz que é para pesquisa científica. Matreiro!!!

E o que isso tem exactamente a ver com a Sociometria?

Bom, a Sociometria em si, é uma ciência derivada da sociologia e da psicologia que se concentra no estudo matemático dos caracteres e perfis psicológicos dos conjuntos sociais, não considerando o homem como um elemento individual no seio dum grupo, mas concluindo que enquanto participante dum grupo, o resultado das acções deste grupo não pode ser encarado como a soma das acções individuais de cada membro, mas sim que cada membro participa de quadros e processos, fenómenos psicossociais que analisados permitem percepcionar o comportamento de cada membro do grupo.

Kogan embora psicometrista, conhecia perfeitamente este fenómeno e percebeu claramente que se conseguisse perceber a estrutura psicológica duma determinada amostra social, mais facilmente conseguiria produzir conteúdo que pudesse espalhar o medo, o ceticismo, a dúvida e a solução. O Facebook faria o resto com a sua anterior politica de desleixo em relação as fake news. E foi isso que fez, usando a preço de banana uma plataforma que tem mais de 1 bilião de utilizadores cadastrados. Assim foi feito e a Cambridge Analytica produziu depois conteúdo relevante em formato de publicidade paga por meio dum competente trabalho de Search Engine Optimization (SEO).

Nao tenha medo. Este tipo vai baixar as armas em obediência a segunda emenda‘ – Mensagem subliminar que dá que pensar as ‘vitimas’

Imagens como esta a esquerda, eram difundidas na app de Kogan e serviam tão somente para iniciar o rastreio de perfil psicológico do típico Americano, receoso do efeito da liberalização das armas, mas também do alto índice criminalístico do país, um dos mais armados do mundo. O homem armado, encapuzado com balaklava, a cor preta e acinzentada realçada na colorimetria e a mensagem que sendo meia verdadeira, espalha uma semente de dúvidas e uma perspectiva sombria, foram estrategicamente bem posicionadas. Hillary e Obama defendiam abolição do porte de armas. Trump, não. O que a mensagem transmitia era sub-liminarmente entendida como estando Obama e Hillary ao lado dos criminosos. Pode parecer brincadeira, mas funciona na perfeição. Kogan sabia disso como ninguém.

Um analista experiente de marketing digital ou um bom técnico de tecnologias de informação, dificilmente cairia no goto de conteúdo desse tipo. Rapidamente detectaria fraude e fake, pelo formato do endereço, pelo site mal trabalhado, pela falta de conteúdo relacionado e contraditório, pela falta de ligação de fontes de informação etc. etc.

Mas não é assim que analisaram os milhões de Americanos e Britânicos, eles são apenas simples utilizadores, precisam de ser protegidos, não de serem máquinas de analise de formato de conteúdo pago.

Os resultados foram demasiados evidentes. Não só a Cambridge Analytica foi capaz de influenciar a saída do Reino Unido da União Europeia, como também conseguiu que o polémico empresário da hotelaria Donald Trump acedesse ao poder nos EUA.

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A Cambridge Analytica tornou-se na mais sofisticada empresa de guerra psicológica

Presentemente, a Cambridge Analytica e seus executivos estão sob fogo, investigados pela justiça tanto Britânica como Americana. Nix foi apanhado praticamente com as calças na mão. Falou demais, já se achava o ‘cara’, revelou até práticas inesperadas para um executivo da industria da comunicação. Wylie abriu a boca, perturbado, pressionado ou preparado para faturar mais, com as consequências imprevisíveis e inenarráveis da máquina de guerra informativa que criou e que foi apelidada como o seu ‘Frankstein’.

Zuckerberg percebeu que tem poucos amigos

Mark Zuckerberg, CEO do Facebook descobriu depois de muitos anos, ironicamente pela sua própria ferramenta, o Facebook, que ele tem poucos amigos ao contrario do que talvez pensava porque tem milhoes de ‘friends’. Moralistas, falsos moralistas, uns mais sinceros do que outros, oportunistas e aproveitadores e uma corte infindável, rapidamente aproveitaram-se da situação para lançar mensagens de bota-abaixo contra o fundador da rede social que ficou por muitos dias sem saber como reagir, talvez percebendo pela primeira vez na vida que tinha uma ferramenta em mãos que é muito mais perigosa do que ele alguma vez imaginou e que se ele retrospectivou o seu inicio certamente que nunca imaginou que chegaria a esse ponto, um ponto que ele não deseja que seja de viragem.

WannaCry: As razões por detrás de um RansomWare

Os motivos não poderiam ser mais graves que os enfrentados hoje. Um poderoso vírus se espalha a uma impressionante velocidade e em força. Sequestra computadores, e sim!! Evitamos mesmo as aspas, porque ele sequestra mesmo. Obrigando as suas vitimas ao pagamento duma especie de coima em Bitcoins a moeda virtual digital criada por uma figura que de tão sinistra até faria o grafiteiro Britânico Banksy morrer de inveja.

Vírus que sequestram os dados dos computadores e pedem resgates, os chamados RansomWares, não são uma novidade, existem aos montões. Em Angola, pelo menos em uma vez pediram-me que auxiliasse uma situação desse tipo. Não são tão vulgares por aqui. Os seus criadores querem dinheiro e por isso escolhem a dedo os seus alvos. Africa, com excepção da Africa do Sul, não é ainda um mercado bastante atrativo. O seu burocrático sistema financeiro não facilita os pagamentos que os seus criadores tanto anseiam.

Este tipo de ameaça parece ter surgido na Russia por volta do meio da década de 2000. A principio as primeiras versões limitavam-se a comprimir arquivos selecionados, subscreviam os originais e pediam um resgate em que a contraparte (vitima) voltaria a ter acesso aos seus documentos por meio dum pagamento de algumas centenas de dólares. Consumado o pagamento, a vitima teria então acesso a password dos ficheiros sequestrados em formato .zip.

Ora, não e que isto começou por se revelar um bom negocio? Foi a isca necessária para que jovens talentosos e desempregados das nações da Europa do Leste, incluindo Romênia e mais um pouco pelo Médio Oriente, abrangendo a Turquia, encontrassem ali o ganha-pão que tanto ansiavam, esgotado que se mostrava o ‘modelo antigo de financiamento’ através de invasão a bancos, sistemas financeiros e afins. Sabe-se que estes últimos estavam cada vez mais a sofisticar-se e a ganhar experiencia de combate contra hackers.

Com as mentes brilhantes a funcionar e a enveredarem pelo ‘negocio’ era só uma questão de tempo para que se notassem esquemas de sofisticação intrigantes.

O surgimento dos Police Ransomware

Os métodos de massificação de infecção das vitimas por RansomWare contam sempre com uma modalidade não técnica, mas sim psicológica do hacking, conhecida como engenharia social. Nela as vitimas são induzidas a realizarem uma acção por meio duma mensagem falsa (fake news) e geralmente com conteúdo sensacionalista, alarmante ou gratificante.

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Esquema de infecção por RansomWare

O uso de correio eletrônico falso não é uma novidade, mas estes hackers sabem que os usuários estão cada dia mais sensibilizados com o que recebem na caixa de correio eletrônico. Neste contexto, preferiam agora camuflar-se na capa de quem eles sabem que os usuários confiam. Não era raro por isso, invadirem servidores de correio eletrônico, sistemas de e-mail marketing e até websites de comercio eletrônico, onde disparavam landing pages contendo links para arquivos maliciosos, ou explorando falhas de segurança de browsers. Sao conhecidos casos de lojas de comercio eletrônico de grifes de luxo invadidas para esse fim. O mote não eh nada inocente. Eles sabem aonde encontrar quem tem poder financeiro, bastando para isso usar métodos de Geolocation das API’s (Application Programming Interfaces) de seu interesse e assim produzirem a mensagem correcta na língua nativa da vitima.

O aparecimento dos CryptoLocker’s e dos Crypto-ransomware’s

Rapidamente os sistemas de antivírus e antimalware tornaram-se mais eficazes no combate a este tipo de pragas, e os sistemas eram recuperados com alguma facilidade. Bom, foi exactamente isso que motivou o aparecimento dos CryptoLockers, algo bem diferente dos primeiros RansomWares que comprimiam os ficheiros em formato .zip com password, este facilmente desbloqueável.

Os CryptoLockers por seu lado usam criptografia forte e possuem uma certa parte vingativa. Ora, se o RansomWare é apagado, nada garante que os dados serão recuperados, porque estes estão encriptados com criptografia assimétrica, o que significa que existe uma chave para encriptar os ficheiros sequestrados e outra para desencriptar os mesmos ficheiros. Essa variante é bastante agressiva. Se um antivírus apaga o RansomWare, o que eh expectável, o RansomWare activa um contador regressivo no wallpaper do ambiente de trabalho ou uma janela de Graphical User Interface (GUI) do computador . Se a vitima durante esse período (que podem ser alguns dias) não realizar um determinado pagamento dum determinado montante, simplesmente perde a possibilidade de recuperar os ficheiros a menos que consiga desencriptar os ficheiros encriptados com algoritmos RSA e AES+RSA (criptografia simétrica), dizem que com chaves a 2048 bits. Isso exigiria um poder de computação brutal, só acessível a centros de computação e agencias de segurança, embora alguns fabricantes de antivírus têm liberado algumas ferramentas para tal. Ora, neste caso um antivírus é inútil. O sistema não esta mais infectado, contudo, a vitima tem todos os seus ficheiros (word, excel, txt, ppt, vídeo, musica etc) bloqueados porque estão encriptados.

A sanha chega a tanto que o Wallpaper ou a mensagem do GUI do RansomWare recomenda mesmo a reinstalação do já detectado e apagado RansomWare para conseguir realizar o pagamento, sob pena da perda definitiva da possibilidade de recuperação da chave de desencriptação, findo o prazo de pagamento do resgate.

Bitcoin, a CryptoMoeda

Para evitarem riscos de rastreamento em pagamentos de resgate recebidos e rastreados pelo sistema financeiro mundial, os Hackers começaram a preferir pagamentos em CryptoMoedas (CryptoCurrencies), um tipo de dinheiro digital e encriptado, conhecidas como Bitcoins (BTC). Em Janeiro de 2016 1 BTC equivalia a 431 U$D. Em Março de 2017 já tinha valorizado a 1.082,55 U$D.

WannaCry, um novo paradigma?

Para mim a resposta é um retumbante não. Não existe nada de novo no WannaCry que possa suscitar nos especialistas um grande alarme, a não ser o facto de que temem perder o emprego por terem as redes desprotegidas negligentemente. Sabe-se que esta versão de RansomWare tem estado a infectar milhares de computadores pela Europa, Estados Unidos e America do Sul, contudo, ainda não se sabe a sua origem, nem os motivos por detrás. O que se sabe, isto sim, é que ele tira proveito duma falha do Windows para ganhar privilégios de execução ou de técnicas de infecção por e-mail, e se replicar pela rede interna por meio da exploração duma falha conhecida no protocolo SMB do Windows.

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A tela GUI do Vírus WannaCry

Ora, o que espanta aqui é que estas técnicas eram também utilizadas por algumas ferramentas da Agencia Nacional de Segurança dos EUA (NSA), por isso se supõe que elas poder ao estar em mãos alheias.

A existência de ferramentas automatizadas de ataque não é algo propriamente novo no mundo do hacking. Desde o inicio dos anos 90 que elas começaram a ser criadas, primeiro por Wietse Wenema e Dan Farmer, depois a Federal Bureau of Investigation (FBI) com o tenebroso farejador de pacotes Carnivore que desenvolveu-se para algo mais sofisticado com o conceito PRISM da NSA. O inicio dos anos 2000 foi a galinha dos ovos de ouro desse mercado com o aparecimento duma amalgama deles, dos mais eficientes aos mais óbvios, a maior parte a explorar falhas de segurança no Windows. As ferramentas da NSA apenas vieram a tona por meio das revelações do ex-espião Norte-Americano Eduard Snowden, entretanto foragido em Moscovo.

A culpa não pode morrer solteira

O admirável neste imbróglio é a revelação espantosa, que grandes instituições como Portugal Telecom, EDP, Ministério do Interior Russo, Hospitais Londrinos e tantas outras tenham se deixado infectar porque mantinham em funcionamento computadores sem as actualizaçoes de segurança. Ora, vejam só!! Actualizar computadores em rede é tao só mais difícil quanto são as burocracias do pessoal da administração da rede, descansadinha na tipoia dos antivírus e firewalls de borda, esquecendo por completo o usuário final, este muito mais vulnerável a actividades de crimes informáticos. De nada adianta proteger a fronteira, se o interior não esta preparado e poderia estar com uma simples actualização do sistema já a muito disponibilizado pela Microsoft. No entretanto é de notar o diminuto grau de infecção por parte de usuários singulares do Windows, o que pode ser explicado primeiro, porque os seus sistemas se actualizam automaticamente pelo Windows Update e segundo, por causa da segmentação natural das redes provedoras de serviço.

Propagacao wannacry

Como o WannaCry se espalha na rede

Neste contexto, a culpa não pode morrer solteira. Não se pode agora acusar a Microsoft de ser o menino mal comportado. Não é verdade!! Não seria até anormal encontrar copias de Windows piratas, mesmo havendo licenças disponíveis e compradas, mas que por mero capricho não foram simplesmente actualizadas. Usar copias piratas do Windows é uma faca de dois gumes. Você não tem garantia de nada, nem de reclamar com o fornecedor.

Esquemas de protecção

Proteger-se pode ser tao simples quanto a simples capacidade de nos vermos vitimas dessa situação. Isto é como na vida real: A não ser que exista uma catástrofe e elas acontecem, nunca devemos descurar os cuidados básicos: manter o sistema actualizado, não baixar arquivos potencialmente danosos, usar um browser seguro como o google chrome, não usar sites de compartilhamento duvidosos, manter um bom antivírus sempre actualizado. Para os administradores de rede, devem manter restrições ao protocolo SMB, ou corrigir as falhas dele nos dispositivos finais, devem procurar segmentar a rede por meio de VLAN’s, activar as rules adequadas nos sistemas de deteccao de intrusos (IDS) e configurar correctamente os firewalls de borda.

PRISM: Isso é alguma novidade?

Não tenho duvidas que já não adianta falar mais sobre o PRISM, porque quase tudo já foi revelado a imprensa sobre ele. Sua capacidade de aceder facilmente aos dados pessoais de quem quer que seja com um ou dois cliques no rato, espantariam até pessoal optimista da craveira de George Orwell.

O PRISM é ‘abastecido’ de informações de diversas fontes diferentes

No entanto, muito mais do que ficar espantado com o PRISM, fiquei mesmo, sim admirado, com o espanto das pessoas perante revelação da existência de tal programa. É que ao que consta daquilo que venho acompanhando desde 2000/2001, o PRISM já existia, embora parece que com outros nomes, ou seja os EUA sempre tiveram os seus sistemas de vigilância electrónica.

Vamos então a uma resenha, se você esqueceu, provavelmente lembrará da maior parte deles:

1 – FBI Carnivore

Esse sistema de vigilância electrónica deu que falar no inicio de 2000. Tratava-se entretanto de algo bem ‘simples’. Um computador com Windows NT ou 2000 e um software farejador de pacotes em modo promiscuo (ou seja, ‘recebia’ tudo) que ficava estrategicamente posicionado nos provedores Internet de interesse da vigilância do FBI. Como eram muitos dados a serem recebidos em submúltiplos de segundo, o software actuava como um classificador de dados, armazenando e descartando informação. Essa forma de actuação do software, bem como o facto de ter sido revelado a imprensa fizeram o FBI descontinuar o seu uso.

A repercussão dele foi tanta que tive um colega em 2001 que dizia de pés juntos que conhecia pessoas em Luanda que usavam o Carnivore. Claro que o colega estava a viajar, mas deu para medir o impacto da informação sobre o Carnivore (também, com um nome desses?).

2 – Prosecutor’s Management Information System (PROMIS)

As informações sobre o PROMIS são tão movie style que até hoje me pergunto se realmente chegou a existir. Em 2000/2001 dizia-se que era um software que podia saber o numero da sua conta bancaria, e rastrear suas transacções financeiras em qualquer parte do mundo, aliás este foi o objectivo numero um da sua criação. Diz-se dele que não dependia da Internet para transmissão dos dados colectados, mas sim, ficou teorizado que o PROMIS era vendido e introduzido nas empresas alvo juntamente com hardware. Este ultimo tinha instalado secretamente um sistema de transmissão dos dados recolhidos via espalhamento espectral, o que até faz todo sentido, porque quem leu um bocado de técnicas de modulação CDMA sabe que o sinal aparece como ruído e os códigos de espalhamento pseudo-aleatórios tornam difícil a interpretação da informação.

Entretanto, entre informações ‘enroladas’, como por exemplo, aquele que dava conta que Bin Laden tinha uma copia dele (é, vocês devem lembrar do ‘computadorzeco’ encontrado em Abbottabad, lol), praticamente nunca foram confirmadas, por fonte oficial. Hoje já quase que não existem pessoas interessadas em falar sobre ele.

3 – National Security Agency (NSA) ECHELON/Five Eyes/UKUSA

Esse é o único que eu acredito que podia existir. Trata-se já, dum sistema de maior dimensão e com uma abrangência geográfica bastante interessante, passando pelos USA, UK, New Zealand e Austrália. Diz-se dele como um conjunto de sistemas SIGINT (Signal Intelligence) capazes de interceptar comunicações que envolvam transmissões radio, fax, email e web. Para isso beneficia-se de estar  instalado estrategicamente e com recursos tecnológicos de elevada capacidade de intercepção via rádio e via sistemas de comutação de provedores de telefonia e Internet.

File:120715 Grondstation Nationale SIGINT Organisatie (NSO) Burum Fr NL.jpg

Por outro lado, poderosos filtros que actuam em tempo real conseguem classificar a informação de forma mais apurada e ‘disparar alarmes’ para interceptores, escutas e gravadores de dados e voz. Essas características fazem dele algo diferente do ‘modesto’ Carnivore.

4 – National Security Agency (NSA) PRISM

Os anos foram passando, veio o 11 de Setembro, o nível de vigilância electrónica aumentou, mas sobretudo também, apareceu um novo conceito da utilização da Web: As redes sociais. A quantidade de informação que essas redes começaram a gerir era dum espanto brutal. Sempre se disse, e sempre se desconfiou que Microsoft, Google, Facebook, etc, entregavam dados de quem quisessem a quem ‘de direito’ pedisse. Essas informações nunca foram confirmadas por essas empresas e até hoje mesmo com o escândalo do PRISM e que envolve também um outro escândalo recente envolvendo escutas na telefónica Verizon, continuam veementemente a negar qualquer envolvimento. E nós estamos a falar de volumes de dados completamente ‘galácticos’. Só o Facebook possui mais de 50 biliões de fotos e 1 bilião de utilizadores. O Google transacciona milhões de comunicações e pedidos por segundo, portanto gerir e interpretar isto não é brincadeira de crianças. Ou pelo menos não era até a bem poucos anos, porque de um tempo a esta parte foram sendo feitos avanços importantes na interpretação de dados, reconhecimento facial e reconhecimento de voz, ao ponto de termos disponíveis em dispositivos domésticos como Smartphones e televisores inteligentes. São esses avanços que permitiram a  Edward Snowden sentar na sua cadeira na sede da NSA e saber da vida de quem ele quisesse saber, sem supervisão de ninguém.

No meu entender só pode se espantar com essas informações quem tem algo a esconder. Quem não tem nada a esconder não tem motivos para estar preocupado com o facto de existir uma rapaziada que gosta de andar ao ‘farejote’ de informações sobre a vida dos outros. Pensar que um país como são os USA se mantém de pé, sem andar ao ‘bisbilhote’ da vida alheia é pura ilusão. E vão continuar independentemente de quem reclamar disso. É a conjuntura dum sistema mundial que está no seu fim e não tarda irá colapsar.

Os 10 maiores hackers da Decada 2000-2010

Não vou entrar em discussões desnecessárias sobre o que é um hacker ou cracker. Para mim hacker/cracker é quem ataca, quebra e ponto final.

Em condições normais esta lista seria feita em 2009. Contudo se analisarmos que 2010 é um numero mais relembrativo que 2009 faz todo sentido que assim seja.

A metodologia usada é baseada não necessariamente na mediatização, mas muito mais no impacto dos actos em si. E na minha opinião são os seguintes abaixo listados:

David Litchfield – Ex-atleta e formado em zoologia, este Inglês é reconhecido como uma das autoridades mundiais em segurança de Bases de Dados e servidores Windows. Meteu os tipos da Oracle a correr dum lado para outro quando descobriu centenas de falhas no Servidor de Base de dados da mesma, o mais usado do mundo. Fez mais ao encontrar mais de 492.000 servidores de bases de dados Oracle e SQL Server acessiveis a partir da Internet sem qualquer protecção de Firewall. O worm Slammer que se espalhou em servidores SQL Server da Microsoft foi ‘graças’ a uma das 24 falhas que o mesmo descobriu em pouco tempo. Quando o Windows Server 2003 foi lançado a Microsoft ‘reclamou’ o sistema como inviolável. David quebrou esta inviolabilidade.
Considerado por muitos como o pai do SQL Injection, publicou inúmeros papers aquando da sua vigência como owner da NGSSoftware e empregado na @Stake. Em 2003 foi considerado o melhor caçador de bugs do mundo, em 2008 empreendedor do ano.

Barnaby Jack – Até poderia passar em branco nesta lista, não fosse ter descoberto formas de ataques em caixas ATM e criação de rootkits para as mesmas.

Segundo Barnaby, as ferramentas que ele criou para hacking em ATM são de tal forma fáceis de usar que até mesmo uma criança poderia usa-la, contrariando a dificuldade conhecida em se atacar caixas ATM.


Chris Paget
– Outro que também podia ser descartado pela nossa lista, não fosse o facto de ter descoberto como interceptar chamadas GSM.

Dan Kaminsky – Em 2008 descobriu falhas em servidores DNS entre os quais o muito usado BIND, o que por si só permitira a um atacante transferir tráfego Internet para onde quisesse.

O estrago poderia ter sido muito grande não fosse a responsabilidade com que se efectuaram patches em provedores de grande dimensao.

 

HD Moore – Quando ouvi falar dele a quase 10 anos, era já conhecido pela ‘scene’, mas sem muita significância, até ter criado o Metasploit, uma estranha framework que permite executar exploits duma forma muito mais facilitada. Nas mãos dum utilizador médio, o Metasploit é uma arma poderosíssima, que o digam os sites atacados por meio do Bug do DNS descoberto pelo Kaminsky e disseminado pelo HD Moore via Metasploit.

 

 

Dino Dai Zovi – Este também é outro que poderia não estar nesta lista, mas está por um motivo muito claro: Antes dele o MAC ‘era uma vez um sistema muito seguro chamado MACINTOSH’. Dino no concurso PWN2OWN na CanSecWest 2007, provou que não era bem assim.

 

 

 

 

 

Samy Kamkar – Ninguem na prática, acreditava em worms pela web. Samy mostrou que era possível criando um worm que no myspace espalhou-se dum jeito tao impressionante que em menos de um dia já um milhão de pessoas no myspace haviam sido infectadas, embora fosse um worm completamente inofensivo. Hoje percorre o mundo em palestras sobre segurança web.

 

 

 

Jeremiah Grossman – Dispensa apresentações. Uma das maiores autoridades de web security. Considerado um dos criadores do conjunto de tecnicas de ataque conhecidos como XSS ou Cross Site Scripting.

 

 

 

 

 

Phenoelit – É um dos melhores grupos de hackers da Alemanha. Sempre que aparece, publica novidades em ‘exploitaçao’ de equipamentos de hardware com ênfase em roteadores. Felix ‘FX’ Lindner o seu mais notavel membro é conhecido por palestrar em diversos assuntos que envolvem segurança de roteadores Cisco, impressoras HP e telemoveis Blackberry.

 

 

 

 

 

Gary Mckinnon – Não sei ao certo o que fez este escocês. Diz-se que é o maior hacker do mundo, acusado de penetrar em 97 computadores da NASA e das forcas Armadas dos EUA. Aguarda extradição aos EUA.

Brasileiros são presos por utilizar ilegalmente satélite americano

Sites de notícias internacionais, como o Boing Boing estão falando a respeito do Brasil. Em 8 de Março, o satélite FLTSAT -8 da marinha americana irrompeu em transmissões ilegais. Brasileiros comemoravam o primeiro gol do jogador Ronaldo pelo Corinthians.

Para utilizar o satélite, caminhoneiros, madeireiros ilegais e outros utilizavam um transmissor de rádio que opera na frequência de 144 a 148MHz, um duplicador de frequência, bobinas e um diodo, permitindo que o rádio operasse à frequiencia de 292 a 317MHz, a mesma dos satélites FLTSATCOM .

Todos os itens necessários podia ser adquiridos por menos de R$ 1.100 em qualquer parada de caminhões. “Eu já vi mais de um desses em lojas de reparo de caminhões. Homens quase analfabetos montavam um em menos de um minuto, enrolando fio em uma bobina”, disse o radioamador Adinei Brochi, que publicou na internet um PDF extenso detalhando o assunto, disponível pelo atalho tinyurl.com/cmagmp .

A utilização do sinal desse satélite, chamado de “Bolinha” já vem sendo feita desde os anos 90, e permitia a comunicação a distâncias muito maiores do que as comumente utilizadas pelos rádioamadores. Criminosos como madeireiros ilegais e traficantes utilizavam o “gato” para trocar informações a respeito de fiscalizações e batidas policiais.

Uma dessas conversas foi interceptada em um vídeo, publicado no YouTube (link: tinyurl.com/dfshld . Na conversa, um homem alerta um amigo para que este tome cuidado, porque as coisas estão ficando “complicadas”, e que “vendavais” se aproximam. “Algumas vezes, os usuários se referem à aproximação das autoridades dizendo que ‘Papai Noel está chegando’”, disse Brochi, mostrando que muitas das conversas registradas são feitas por criminosos.

“Isso vem acontecendo há cinco anos”, declarou Celso Campos, da Polícia Federal, que já prendeu 20 pessoas acusadas da pirataria do sinal, que não é muito utilizado pelo exército americano, mas ainda assim é oficial e seu uso é ilegal. “É impossível não encontrar equipamentos como esse quando prendemos qualquer quadrilha de crime organizado”, disse outro policial.

A operação policial, que está sendo chamada de “Operação Satélite”, é a primeira no país a lidar com esse problema. A Polícia Federal seguiu coordenadas cedidas pelo Departamento de Defesa americano com consultoria da Anatel, agência brasileira que regula as redes de telecomunicações. Como resultado, foram presos professores universitários, eletricistas, caminhoneiros e farmacêuticos, que podem pegar até quatro anos de prisão.

Além do componente criminoso, o uso dos satélites por pessoas não autorizadas pode prejudicar seus usuários oficiais. “Se um soldado é ferido em uma emboscada, a primeira coisa na qual ele vai pensar será em mandar uma mensagem de socorrro, requisitando isso pelo rádio. E se ele estiver tentando pedir ajuda e dois caminhoneiros estão discutindo sobre futebol? Em uma emergência, aquele soldado não conseguirá lembrar rapidamente como mudar a programação do rádio para procurar uma frequência que não esteja ocupada”, lembrou Brochi.

Os casos de pirataria, entretanto, não se resumem apenas ao Brasil. No ano passado, americanos seguiram um sinal que ia até Nova Jersey, destinados a um imigrante brasileiro que residia no local. Joaquim Barbosa, que utilizava um transceiver programado para um FLTSAT , foi multado em US$ 20.000, o equivalente a quase R$ 45.000.

De acordo com o blog de segurança política do site Wired , quatro satélites FLTSATCOM foram colocados em órbita nos anos 70, uma época de grandes avanços nas comunicações militares. Seus 23 canais eram utilizados pelo exército americano e até pela Casa Branca, para conversas e arquivos criptografados em equipamentos portáteis de fácil utilização em campo de guerra. Hoje, existem apenas dois desses satélites em órbita, e sua tecnologia foi substituída por oito satélites UFO (Ultra High Frequency Follow-On).

Fonte: yahoo