PRISM: Isso é alguma novidade?

Não tenho duvidas que já não adianta falar mais sobre o PRISM, porque quase tudo já foi revelado a imprensa sobre ele. Sua capacidade de aceder facilmente aos dados pessoais de quem quer que seja com um ou dois cliques no rato, espantariam até pessoal optimista da craveira de George Orwell.

O PRISM é ‘abastecido’ de informações de diversas fontes diferentes

No entanto, muito mais do que ficar espantado com o PRISM, fiquei mesmo, sim admirado, com o espanto das pessoas perante revelação da existência de tal programa. É que ao que consta daquilo que venho acompanhando desde 2000/2001, o PRISM já existia, embora parece que com outros nomes, ou seja os EUA sempre tiveram os seus sistemas de vigilância electrónica.

Vamos então a uma resenha, se você esqueceu, provavelmente lembrará da maior parte deles:

1 – FBI Carnivore

Esse sistema de vigilância electrónica deu que falar no inicio de 2000. Tratava-se entretanto de algo bem ‘simples’. Um computador com Windows NT ou 2000 e um software farejador de pacotes em modo promiscuo (ou seja, ‘recebia’ tudo) que ficava estrategicamente posicionado nos provedores Internet de interesse da vigilância do FBI. Como eram muitos dados a serem recebidos em submúltiplos de segundo, o software actuava como um classificador de dados, armazenando e descartando informação. Essa forma de actuação do software, bem como o facto de ter sido revelado a imprensa fizeram o FBI descontinuar o seu uso.

A repercussão dele foi tanta que tive um colega em 2001 que dizia de pés juntos que conhecia pessoas em Luanda que usavam o Carnivore. Claro que o colega estava a viajar, mas deu para medir o impacto da informação sobre o Carnivore (também, com um nome desses?).

2 – Prosecutor’s Management Information System (PROMIS)

As informações sobre o PROMIS são tão movie style que até hoje me pergunto se realmente chegou a existir. Em 2000/2001 dizia-se que era um software que podia saber o numero da sua conta bancaria, e rastrear suas transacções financeiras em qualquer parte do mundo, aliás este foi o objectivo numero um da sua criação. Diz-se dele que não dependia da Internet para transmissão dos dados colectados, mas sim, ficou teorizado que o PROMIS era vendido e introduzido nas empresas alvo juntamente com hardware. Este ultimo tinha instalado secretamente um sistema de transmissão dos dados recolhidos via espalhamento espectral, o que até faz todo sentido, porque quem leu um bocado de técnicas de modulação CDMA sabe que o sinal aparece como ruído e os códigos de espalhamento pseudo-aleatórios tornam difícil a interpretação da informação.

Entretanto, entre informações ‘enroladas’, como por exemplo, aquele que dava conta que Bin Laden tinha uma copia dele (é, vocês devem lembrar do ‘computadorzeco’ encontrado em Abbottabad, lol), praticamente nunca foram confirmadas, por fonte oficial. Hoje já quase que não existem pessoas interessadas em falar sobre ele.

3 – National Security Agency (NSA) ECHELON/Five Eyes/UKUSA

Esse é o único que eu acredito que podia existir. Trata-se já, dum sistema de maior dimensão e com uma abrangência geográfica bastante interessante, passando pelos USA, UK, New Zealand e Austrália. Diz-se dele como um conjunto de sistemas SIGINT (Signal Intelligence) capazes de interceptar comunicações que envolvam transmissões radio, fax, email e web. Para isso beneficia-se de estar  instalado estrategicamente e com recursos tecnológicos de elevada capacidade de intercepção via rádio e via sistemas de comutação de provedores de telefonia e Internet.

File:120715 Grondstation Nationale SIGINT Organisatie (NSO) Burum Fr NL.jpg

Por outro lado, poderosos filtros que actuam em tempo real conseguem classificar a informação de forma mais apurada e ‘disparar alarmes’ para interceptores, escutas e gravadores de dados e voz. Essas características fazem dele algo diferente do ‘modesto’ Carnivore.

4 – National Security Agency (NSA) PRISM

Os anos foram passando, veio o 11 de Setembro, o nível de vigilância electrónica aumentou, mas sobretudo também, apareceu um novo conceito da utilização da Web: As redes sociais. A quantidade de informação que essas redes começaram a gerir era dum espanto brutal. Sempre se disse, e sempre se desconfiou que Microsoft, Google, Facebook, etc, entregavam dados de quem quisessem a quem ‘de direito’ pedisse. Essas informações nunca foram confirmadas por essas empresas e até hoje mesmo com o escândalo do PRISM e que envolve também um outro escândalo recente envolvendo escutas na telefónica Verizon, continuam veementemente a negar qualquer envolvimento. E nós estamos a falar de volumes de dados completamente ‘galácticos’. Só o Facebook possui mais de 50 biliões de fotos e 1 bilião de utilizadores. O Google transacciona milhões de comunicações e pedidos por segundo, portanto gerir e interpretar isto não é brincadeira de crianças. Ou pelo menos não era até a bem poucos anos, porque de um tempo a esta parte foram sendo feitos avanços importantes na interpretação de dados, reconhecimento facial e reconhecimento de voz, ao ponto de termos disponíveis em dispositivos domésticos como Smartphones e televisores inteligentes. São esses avanços que permitiram a  Edward Snowden sentar na sua cadeira na sede da NSA e saber da vida de quem ele quisesse saber, sem supervisão de ninguém.

No meu entender só pode se espantar com essas informações quem tem algo a esconder. Quem não tem nada a esconder não tem motivos para estar preocupado com o facto de existir uma rapaziada que gosta de andar ao ‘farejote’ de informações sobre a vida dos outros. Pensar que um país como são os USA se mantém de pé, sem andar ao ‘bisbilhote’ da vida alheia é pura ilusão. E vão continuar independentemente de quem reclamar disso. É a conjuntura dum sistema mundial que está no seu fim e não tarda irá colapsar.

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